Cada um de nós é um suicidafrustrado. E se ainda não estouramos os miolos, ou não pendemos de uma forca,ou não tomamos formicida, é que nos salva, sempre, em cima da hora, a nossaincoercível pusilanimidade vital. Mas se cancelamos o nosso suicídio,admiramos e, mais do que isso, invejamos o alheio. O sujeito que se mata dá-nosa impressão de que se apropriou indebitamente de um ato, de um impulso, de umdesespero, que deviam ser nossos. Vejam Maneco, o ex-craque do América, quebebeu formicida na casa de um parente.
Outros jogadores já morreram: - dedoença, de acidente e, até, de fome. Mas o suicida não é um morto qualquer.Tem uma morte única, inconfundível, inalienável. Ou por outra: - não morreu,propriamente, matou-se. E, com o exemplo de Maneco, verificamos, ainda uma vez,que o suicídio tece um parentesco sutil, mas irresistível, entre nós e odefunto. Quando os jornais e as rádios anunciaram o fato, cada leitor e cadaouvinte sentiu-se um crispado irmão de Maneco. Eu soube na rua. Um amigo meu,que vinha em sentido contrário, atirou-me na cara a notícia: -"suicidou-se o Maneco!".
Era atualmente um simples técnico dejuvenil, no América. Fora escorraçado dos jornais. Ninguém falava nele e sóuns poucos lembravam-se de sua passagem pelo futebol. E, no entanto, raríssimoscraques tiveram uma carreira tão fulgurante, embora breve, muito breve. Houveum momento em que aparecia todos os dias, no berro gráfico das manchetes. Bastadizer o seguinte: - chegou a suplantar, a barrar no escrete o grande Ademir. Enuma Segunda-feira, após um Brasil x Argentina, foi demais: - seu nome encheutodas as bocas como saliva. E que fez ele para por assim histérica uma cidade?Apenas isso: - três ou quatro jogadas de antologia. O futebol de Maneco erarealmente enfeitado, pulado, colorido como um índio de carnaval. Mas essaglória, que era alucinante, foi, também, muito rápida.
E, súbito, o craque começou aperceber que a multidão já lhe negava o aplauso. Se, ao menos, fosse vaiado!Nas nem isso, nem isso! Por fim, quando se falava nele, já faziam confusão:-"Maneca, do Vasco?". Não há ninguém mais desconhecido, ninguémmais obscuro, ninguém mais anônimo do que o sujeito que foi célebre um dia.Quanto à imprensa, ao rádio, à televisão, viviam esfregando na nossa caraoutro Maneco mais atual: -Didi. Por último, veio a história dos quarentacontos, que não pôde pagar. O meu confrade Carlos Renato disse bem: - numaterra em que todos devem, Maneco morreu de paixão por uma dívida.
Cabe nessa crônica o raciocínio: - oex-craque matou-se por causa de quarenta contos. E assim sendo todos os que, naface da terra, aqui ou alhures, dispõe de uma importância igual ou maior,estão implicados no episódio. Por outro lado é um erro considerar-se osuicídio como tal. Na verdade, ele representa algo mais: - é um assassinato.Examinemos uma relação, ainda que sumária, dos que influíram no seudesespero: - primeiro, os que tinham os quarenta contos ou mais; e, depois,todos nós e cada um de nós. Sim, amigos: todos os que lhe negamos o aplauso,que lhe viramos as costas, que o confundimos com Maneca do Vasco, que oesquecemos, somos co-assassinos Maneco.
