Caju Amigo do Homem
Stanislaw Ponte Preta
O caju, fruta brasileira que aqui jáencontrou o Almirante Pedro Álvares Cabral – hoje estátua nos jardins doRussel e anteriormente descobridor do Brasil -, foi batizado (não Cabral, mas ocaju) pelos índios tupis. Acreditavam os silvícolas que o referido frutonascesse de cabeça para baixo, impressão essa causada pelo caroço (castanha)que o caju ostenta na sua parte de baixo. Mas isso é besteira porque, pensandobem, não somente o caju, mas todo mundo nasce de cabeça pra baixo. De como ocaju se transformou em amigo do homem, principalmente do homem que bebe e,particularmente, do homem casado, é coisa que Stanislaw, grande sociólogofrugívoro (salvo seja), explica nas linhas subseqüentes.
Sabemos que certos entreguistas vãodizer que este estudo sobre a brasilidade do caju é bobagem, mas o que se háde fazer? Como dizia Hoffmann, "a inveja é a sombra da glória". Masvoltemos ao saboroso fruto, cuja nódoa é de amargar e, quando pega na roupa dagente, só sai na safra seguinte, segundo nos revelou o compositor LuísAntônio, que é militar e Flamengo, sendo – portanto – duplamentesupersticioso. De qualquer maneira, a nódoa deixada pelo caju mancha tanto aroupa da gente quanto – por exemplo – aquele baile do João Caetano mancha areputação de rapaz solteiro.
Saboroso, carnudo e pródigo em caldo, ocaju – em matéria de serventia – só perde para o boi, animal doméstico degrande utilidade e do qual o homem só não aproveita o suspiro, porque de resto– do chifre ao estrume – já está tudo industrializado. Da castanha do cajuse aproveita o caroço para nos fazer beber mais, colocando-o picadinho eterrivelmente salgado, em pratinhos sutis sobre a mesa do bar. Também dacastanha se aproveita a tradicional e laxativa cozinha baiana. Vatapá(principalmente) e outros pratos de menor prestígio levam a sua castanhazinhamoída, para alegria daqueles que se perdem pela boca, sem dar vez aosintestinos. Ainda desse caroço, responsável pela mancada dos silvícolas acimacitada, se faz um magnífico pirão, usado em pratos de bacano, como a galinhaà normanda e o pato à Califórnia, embora nem na Normandia nem na Califórniahaja caju, o que prova a versatilidade da sua castanha.A própria polpa da frutahora em estudo é útil, pois famílias menos favorecidas do litoral nordestinocomem-na ensopada, sempre que lhes falta a mandioca, a batata ou a cenoura,tubérculos mais apropriados para um PFR (Prato Feito Reforçado). O caju podeser ainda servido em calda, frio, cozido ou liquefeito, sendo que, no últimocaso, já não é mais caju: é cajuada, mas nem por isso perde a personalidade.
Costuma-se dizer que o cachorro é omelhor amigo do homem, mas a afirmativa é um pouco precipitada. Ninguém botacaju no quintal pra tomar conta da casa, mas há muitas coisas que cachorro nãotem e que sobram no caju. Afinal de contas, o cachorro não tem castanha, nãoé saborosoe, na hora do refresco, ninguém espreme um cachorro para fazer umasuculenta cachorrada. E tem mais: dizem que quando o dono é bêbedo o cachorroé sem-vergonha, adesão que não recomenda o cão. Já o caju, ao contrário,é o melhor amigo do homem ... do homem que bebe e – acima de tudo – dohomem casado.
Há tempos, certo cavalheiro destapraça, cansado de ser espinafrado em casa pela distinta cônjuge, quandochegava com bafo de onça por Ter tomado umas e outras nessas tendinhas pelaaí, tratou de se dedicar à busca daquilo que tirasse definitivamente o cheirode bebida da boca de um castigador de alcalinas. Começou, é claro, pelosinventos americanos, como pílulas de clorofila, chiclete, drops, e outrasbobagens de grande aceitação no mercado e de nenhuma eficiência comotira-bafo. Já na iminência de desistir, esse abnegado da ciência, certanoite, antes de ir para casa caneado, passou na casa de um conhecido paraentregar uma encomenda. E este, na base da gentileza, ofereceu uma cajuada. Comoestivesse com sede, o coleguinha de Pasteur aceitou o refresco e, em seguida,foi pro holocausto, digo, foi pra casa. E qual não foi sua surpresa quando, aochegar e beijar a megera, digo, a esposa, ouviu da boca desta o elogio: "Sim senhor, assim é que eu gosto. Você hoje não está cheirando a bebida".