Carandiru



...e, então, o muro surgiu. Deve tersido construído durante a madrugada do dia anterior, porque à noite estávamosna varanda e não havia qualquer alteração na nossa linha do horizonte detodos os dias, o capinzal e a árvore do morro, a amendoeira que ficava diantedo nosso andar no edifício. Moramos num décimo-terceiro andar. Numa linhahorizontal, meu olhar toca a meia-encosta do morro, bem no meio da favela.Recordo do meu tempo de estudante: é uma meia-laranja, pouco íngreme e comalgumas árvores na sua parte mais baixa e média. Mais para o cume, searredonda suavemente. Até ontem à noite, nada ocupava seu topo. Um dia, Janeme dissera que não entendia porque os favelados não ocupavam a parte superiordo morro. Jane é apaixonada pelo nosso morro; conhece à distância as pessoas,seu modo de vida, suas roupas embandeiradas nas cordas, as árvores, quem temuma horta plantada, os valentões, os animais, as crianças. Tem verdadeiroprazer em observá-lo, o morro, abertamente, de nossa varanda. Numa tarde desol, começaram a construção de um barraco no alto do morro: sete hastes demadeira cravadas verticalmente, com varas de bambu transversais, pregadas àshastes, umas bem pertinho das outras, para receberem o barro amassado. Eramtrês pessoas, uma delas mulher. Trabalharam até à noitinha; depois, desceramo morro em fila indiana. Fiquei sabendo por Jane. Ela acompanhara o grupo atéchegar aos primeiros barracos, no meio do morro; depois, perdera o interesse.Sua curiosidade ficara mais aguçada, porque este era o primeiro barraco no topoe, por uma coincidência incrível, ele estava localizado exatamente no lugarpredileto de Jane: no topo, bem na linha do horizonte, junto à árvoresolitária, dominando toda a parte leste da cidade e a baía ao longe. Mesmo osbarracos mais elevados não tinham (imaginava) uma vista bonita da cidade, emuito menos do mar. Calculava que as casas mais elevadas estavam no mínimo auns cem metros morro abaixo. Lembro-me de ter argumentado que os favelados nãose importavam nem um pouco com a vista, que se pudessem certamente iriam morarbem do lado da rua, na entrada do morro e de preferência perto do ponto doônibus; mas lá certamente já estariam os mais remediados, os mais valentes,ou os mais antigos. Certamente que meus argumentos não mudaram em nada suavisão política do morro. Porém suas convicções ficaram um pouco abaladasquando, no dia seguinte, não mais vira o esqueleto montado no dia anterior. Omorro continuava liso, só o capinzal e a amendoeira isolada; da construção eda família, nenhum sinal. Disse-lhe que talvez tivessem escolhido outro lote,mais perto da rua, mais confortável; todo dia aparecia um barraco novo, gentenova. Mas Jane definitivamente descartou esta possibilidade; a mulher, lembrava,era muito magra e seus cabelos muito longos, até a cintura. Mesmo àdistância, seria facílimo identificá-la. Tinha a certeza que não tinha vistomais tal mulher. Os dois homens tinham estatura baixa e compleição regular, aprincípio poderiam passar despercebidos - se bem que Jane terminaria poridentificá-los. Também não foram mais vistos.

Era um muro comum, se bem que mais altoque o normal. Devia ter uns três metros de altura, talvez quatro. Dominava todaa paisagem. Ainda era muito cedo, e o cume estava ainda um pouco brumoso, mas àdistância, parecia estar bem construído: surgia no lugar em que devia estar aamendoeira, bem a prumo, com algumas vigas de cimento espaçadas entre ostijolos, acompanhando exatamente a linha da cumeeira do morro, em paralelo comnossa varanda. O muro avançava cinqüenta, cem metros, e abruptamentevoltava-se numa curva fechada para a parte traseira do morro, a que não podiaser vista por nós. Certamente a amendoeira devia ter sido cortada. Mesmo detão longe, sabíamos que a árvore devia superar o muro em mais de cincometros. Não poderia, de modo algum, estar oculta pelo muro. Tinha sidoderrubada. Jane, triste por sua árvore predileta. Ficamos um bom tempo calados.Eu não conseguia imaginar um objetivo para o muro. Sua construção demandariatoda uma preparação anterior: a areia, o saibro, o cimento, tábuas, tijolos,o ferro das colunas, a brita, e até a água, tudo teria que ser levado morroacima, até o cume. Sem contar com o movimento dos operários. Mas nãotínhamos notado nenhum movimento na tarde anterior. Sugeri que os homens teriamlevado as coisas todas pelo lado oculto do morro, mas Jane conhecia o outrolado, era uma pedreira abandonada. O cume terminava logo após a nossa linha devisão, num vazio de granito de muitos metros; por ali não poderiam terchegado. O muro atraía nossos olhares. Sua presença era inconsistente demais!Disse a Jane que gostaria de saber como reagiriam os moradores do morro ao muro;mas no havia qualquer movimento na parte habitada. Estranhamente, notei que nohavia nem mesmo o pouco movimento existente naquela hora, só silêncio: oscães, as galinhas e os patos, as crianças da escolinha, mais madrugadoras, osprimeiros trabalhadores, as mulheres que trabalhavam fora, nada percebíamos.Era como se o morro estivesse vazio. As janelas e portas dos barracos estavamfechadas. Isto era estranhíssimo, disse Jane: mesmo a esta hora da manhã, omorro fervia de movimento, ruídos, gente e bichos e a criançada... Ficamosprocurando por algum sinal, algum indício; em vão. Repentinamente, mesmo osruídos comuns da rua, a esta hora já tão movimentada com os carros que iampara a ponte, não escutávamos. Nossos olhos retornaram, morro acima, para omuro. Ninguém, nada mudara. Jane, pedi, ligue o rádio. Absurdamente, esperavaalguma indicação, no noticiário, que explicasse o que estava ocorrendo. Masnada de especial tinha ocorrido na cidade: a temperatura, os aeroportos, astransgressões usuais, as mesmas promessas de políticos, uma invasão depresídio em São Paulo, o mesmo de sempre. Vamos tomar café, pedi. Janecomeçou a contar o filme que vira no dia anterior, do Bergman, o filme estavacortado, uma merda, uma história de três irmãs, uma com câncer, a Agnes, masa cor era linda. Tak, tak, tak, barulho de fita, não podia acontecer isto, aAgnes estava já muito doente, e cortaram a parte da leitura do diário, elagritava muito pela Ana. Meus olhos haviam se voltado para o muro. Jane, aofundo: a Karen era muito seca, e elas estavam com um relacionamento muitodifícil, a Maria tinha um caso com o...

Um pouco maior. Estava um pouco maior. Eum pouco fora de prumo, tombado suavemente para o lado das casas. Embaixo, omesmo silêncio. (se auto-pune com um caco de vidro, na vagina, e o maridoolhando... cortaram demais, taí, cortaram muito o filme). O rádio: Carandiru,110 mortos, corredor polonês, a polícia militar invadiu... Desviei os olhospara Jane, desliguei o rádio. Vamos sair um pouco, vamos tomar café na padariada esquina, lá tu me conta o filme, tá bem? Mas meus pés pareciam chumbo,senti um calor estranho nas pernas, um calor de queimação. Olhei mais umavez... Vamos, disse Jane, vamos para a rua. Vamos ver as pessoas lá na rua.Temos ainda muita coisa para fazer hoje.


 FINIS

Caminho fácil, macio, frouxo, na superficie, intimorato. Caminho felino, na noite-buraco, até tua rua. A luz que brota de tua janela é meu sinal, é teu cartão; me deixa surdo aos que passeiam despudorados na tua rua. Meu paradeiro, o velho poste, é solidário com meu passar. Face banhada por tua luz, também estático, é lua plena, meu velho poste, teu guardião enciumado.


Êste conto está no site de Fernando Naxcimento.

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