A coroa de orquídeas



Nelson Rodrigues


Quando a mulher entrou em agonia, ele caiu em crise. Atirou-se em cima da cama, aos soluços. Foi agarrado, arrastado. Debatia-se nos braços de parentes e vizinhos; esperneava. E houve um momento em que, no seu desvario de quase viúvo, cravou os dentes numa das mãos próximas. A vítima uivou:

- Ui!

Então, na sala, cercado e contido, chorou alto, chorou forte. Seu gemido grosso atravessava o espaço e era ouvido no fim da rua. Enquanto isso, o amigo mordido, na cozinha, exibia a mão: "Tirou um naco de carne!". Alguém perguntou baixo, com admiração: "Mas os dentes dele não são postiços?". Eram. E, em torno, houve um espanto profundo. Ninguém compreendia que um indivíduo que usava na boca uma chapa dupla pudesse morder com tanta ferocidade e resultado. E, súbito, veio espavorido lá de dentro um irmão da moribunda. Pousou a mão no ombro do Juventino. Pigarreia e soluça:

- Morreu.

Várias pessoas espichavam o pescoço para ver as reações. Primeiro, Juventino levantou-se, esbugalhando os olhos. Depois que assimilou o fato, desprendeu-se de vários braços, num repelão. Dava socos no próprio peito e estrebuchava:

- Me dêem um revólver! Quero meter uma bala na cabeça!


Dor autêntica


Essa dor agressiva e autêntica arrepiava. E havia, disseminado no ar, o medo de que o infeliz ferrasse os dentes em alguma mão ainda intacta. Durou o paroxismo de dez a quinze minutos. Por fim, a própria exaustão física serviu de sedativo. Gemia baixo. Mas, quando o sogro o convocou para ver a esposa, recuou como que diante de uma blasfêmia. Num tremor de maleita, rilhando os dentes, soluçou:

- Não vou! Não quero!

Era a sua antiga e irredutível pusilanimidade diante da morte. Desde criança tinha medo de qualquer defunto, fosse conhecido ou desconhecido, parente próximo ou remoto. A idéia de ver a mulher morta o arrepiava. Defendia-se: "Não!". E corrigiu: "Agora, não!". Com o coração disparado, não pôde evitar a seguinte e quase irreverente reflexão: "Por que não pintam os cadáveres?". Perguntaram?

- O enterro vai sair daqui?

Virou-se:

- Claro!

Um dos vizinhos, o mesmo que fora mordido na mão, vacila e sugere:

- Não será mais negócio capelinha?

- Por quê?

E o outro, alvar:

- É mais prático. Mais cômodo.

Então o viúvo exaltou-se. Enfiou o dedo na cara do vizinho:

- Considero um desaforo essa mania de capelinha! É uma falta de respeito! Ora veja!


Saudade


Um vizinho e um cunhado partiram, de táxi, para tratar do atestado de óbito e do enterro. Então, andando de um lado para o outro, numa excitação de possesso, Juventino surpreendeu e confundiu os presentes com uma série de confidências, legítimas umas, extravagantes outras. Na sua euforia retrospectiva, deblaterava:

- Nunca houve marido tão feliz como eu! Duvido!

Elogiou a mulher de alto a baixo, chamou-a de "anjo dos anjos", "flor das flores". E, súbito, diante dos vizinhos atônitos e maravilhados, baixa a voz:

- Era tão séria que namorou um ano comigo, noivou dois e só topou beijo na boca depois do casamento! Quer dizer, mulher batata!

Havia um aspecto da sua vida conjugal que ainda o envaidecia: o recato da mulher. Sempre conservaria, perante o marido, um mínimo de cerimônia. Cutucou o vizinho e segredou: "Teve pudor de mim até o último momento!". Pausa, arqueja e conclui:

- Nunca tomou injeção que não fosse no braço!

Parecia evidente que esse pudor frenético o deleitava, ainda agora. Numa brusca cólera, desafiou os circunstantes:

- Isso é que era mulher no duro, cem por cento! O resto é conversa fiada!


Câmara Ardente


As providencias de ordem prática estavam sendo tomadas. Uma hora depois ou pouco mais, apareceram os funcionários da empresa funerária. Armara-se a câmara ardente na sala de visitas. Em dado momento, o viúvo teve de levantar-se para atender o telefone. Era o cunhado. Estava na casa de flores e desejava fazer uma consulta até certo ponto delicada. Perguntou:

- Tua coroa pode ser de orquídeas?

Admirou-se no telefone:

- Pode. Por que não?

Pigarreia o cunhado:

- Mas é puxado!

- Quanto?

O outro disse uma quantia. Juventino esbravejou:

- Ladrões!

Vacila. Lembra-se de que a doença da mulher já lhe custara uma fortuna; contraía dívidas, tinha na farmácia uma conta extratosférica. Acabou optando por outra solução:

- Vamos fazer o seguinte; orquídea é uma flor besta, sofisticada. Arranja uma coroa mais em conta.

Do outro lado da linha, veio a pergunta: "Qual é a dedicatória?". Hesita novamente. Decide-se:

- Põe assim:"À Ismênia, saudade eterna do teu Juventino".


Às Coroas


Do telefone, veio para a sala. Até então, fiel à própria covardia, não fora espiar o rosto da mulher no caixão. E o pior é que seu medo estava mesclado de curiosidade. Costumava dizer, numa frase rebuscadíssima, que o verdadeiro rosto da mulher aparece só no amor ou na morte. Acendendo um cigarro, pensava: "Os defuntos são muito feios!". Por outro lado, ocorria-lhe que, com ou sem pusilanimidade, teria de beijar a esposa antes de sair o enterro. Na sua meditação de viúvo, cogitou de uma solução que lhe parecia praticável, qual seja: a de beijar sem ver, isto é, beijar fechando os olhos.

Mais uns quarenta minutos e começam a chegar as coroas. Uma das primeiras foi a sua. Correu, sôfrego; leu as legendas fúnebres, em letras douradas. As orquídeas tinham sido substituídas pelas dálias. E Juventino, recuando dois passos, considerava o feito. Não pôde furtar-se a um sentimento de satisfação. Disse de si para si: "Bacana!". À medida que iam chegando mais flores, ele se convencia de que a sua coroa não fazia feio no meio das outras. Pelo contrário. Se não fosse a melhor, podia figurar entre as melhores.


Surpresa


Às onze horas, a casa estava apinhada. Tinha vindo gente até de Vigário Geral. O inconsolável viúvo era abraçado por uma série de parentes, inclusive alguns que ele julgava mortos e enterrados. Às onze e meia, Juventino passa por uma nova crise. E uma coisa o atribulava de maneira particular e dolorosíssima: a doença da mulher. Aos soluços, interpelava os clientes:

- Como é possível morrer de pneumonia? Se fosse câncer, vá lá. Mas pneumonia! - Virou-se para um vizinho; estrebucha: - Sabe que eu estou desconfiado que penicilina é um conto-do-vigário?

Neste momento, todos os olhos se voltaram para a direção da porta. Acabava de entrar uma coroa. Era, porém, uma coisa realmente insólita e gigantesca. Dir-se-ia uma coroa de chefe de Estado, de raínha ou, no mínimo, de ministro. Toda feita de orquídeas, ofuscou automaticamente as demais. Atônito, Juventino balbuciou: "Parei!". Trôpego, a boca torcida e já distraído da própria dor, veio rompendo os grupos, no seu espanto e na sua curiosidade. E, com a mão trêmula, desenrolou a fita. Soletrou, a meia voz, para si mesmo: "À inesquecível Ismênia, com todo o amor, de Otávio".

Antes de mais nada, aquele "inesquecível" foi nele uma espécie de punhalada material. Ocorria-lhe uma reminiscência cinematográfica: Rebeca, a mulher inesquecível. Virou-se para os presentes, que pareciam também impressionadíssimos. Perguntava de um para o outro:

- Otávio? Quem é Otávio? Vocês conhecem algum Otávio?

Não, ninguém conhecia. Mas ele corria, um por um, todos os parentes: "Mas como é possível? Que negócio é esse?".


Drama


A obsessão passou a dominá-lo: voltou para perto da coroa e leu, releu a legenda. Apertava a cabeça entre as mãos: "Todo amor por quê?". Concentrou-se. Procurava descobrir, no fundo da memória, alguém que tivesse esse nome. E uma coisa o enfurecia: aquela coroa espetacular, tão mais bonita e até mais cara que as outras. Fazia seus cálculos, em voz alta:

- O cara que mandou isto gastou os tubos. E por quê, meu Deus, por quê?

Houve um momento em que o próprio Juventino se julgou também um milionário, mas da loucura. Meteu-se num canto; já não falava mais com ninguém, feroz e incomunicável. Quase ao amanhecer, alguém veio oferecer um cafezinho. Saltou: "Vai-te para o diabo que te carregue!".

Passam-se os minutos, as horas. Todos os que chegam pasmam para a fabulosa coroa. Finalmente, na hora de fechar o caixão, a própria sogra, soluçando, vem chamar o genro: "Você não vai beijar a fulana?". Ergueu-se. Antes, foi ao escritório apanhar não sei o quê. Atravessou por entre os parentes e vizinhos. Estava diante do caixão. E, súbito, mete a mão no bolso e... Só viram quando ergueu um punhal e o afundou na defunta, aos berros de:

- Cínica! Cínica!

A lâmina penetrou por entre as duas costelas. E a morta parecia rir.

Home Adivinhações Aids
Almas Gêmeas
Jogo da Alma
Numerologia
10 Coisas
Curiosidades Caninas
A Verdadeira Idade
Tóxicos
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Nomes
Bookmark
Concursos
Currículos
Cursos
Fórum
Seminários
Software
A Carona
A Cartomante
A Eternidade dos que Amaram
O Corvo
O Corvo
O Gato Preto
O Poço e o Pêndulo
A Coroa de Orquídeas
A Volta do Dia da Sinceridade
Caju Amigo do Homem
Carandiru
Uma voz na Escuridão
Guardador de Rebanhos
O Dia da Sinceridade
O Pastelzinho
O Suicida
Pato com Azeitonas
Se te queres Matar
Tentação
Vingador da Lady Di
A Cidade de Tiahuanaco
Bigfoot
Bunyips
Carcaça Gigante
Carcaça no Egito
Cavalo Branco de Westbury
Celacanto
Cerne Abbas
Cobra Gigante no Congo
Criatura de Queensland
Diabo de Jersey
Fera do Gevaudan
Mapinguari
Mega Mouth
Mokele Mbembe
Lago Champlain: Champ
Lago Okanagan: Ogopogo
Lago Morar: Morag
Morgawr
Mothman
O Enigma da Esfinge
Oar Fish
Pegadas do Diabo
Pegadas no Rio Paluxy
Pterossáuros
Sereias, Tritões e Ri
Tatzelwurm
Terraço de Baalbek
Thunderbird
Yonaguni: civilização perdida
Teste de Amor
Checkbox
Corrida dos Caranguejos
Jogo da Forca
Solitaire Poker
Contando seus Dias de Vida
Jogo da Memória
Pedra, Tesoura, Papel
Jogo da Velha
JSkeetch
Jogo de Xadrez
Pong
Quadrados Mágicos
Saiba + Inglês
Teste de QI
Gifs Animal
Gifs Caveira
Gifs Voltar
Gifs Entrar
Gifs Computador
Cão, Gato e Rato
Gifs Golfinho
Gifs Novo
Gifs Flor
Gifs Mundo
Gifs Welcome
Gifs Ball
Gifs Áudio e Vídeo
Gifs Contador
Gifs Dragão
Gifs Brasil
Gifs Olhos
Gifs Barra
Gifs e-mail
Gifs Construção
Gifs Miscelanea
Gifs Dinossauro
Gifs Et's
Gifs Peixe
Wallpapers
Tutoriais
Drogas Egito Antigo
Egito Moderno
O Esperanto
Downloads
Links
Mandamentos do Estudante
Guia Prático
Piadinhas
Matar Aula
Vestiburrices
Curiosidades de Ciências
Curiosidades de História
Curiosidades de Geografia
Curiosidades das 7 Maravilhas
Variedades
Vestibular

Ilusões 1
Ilusões 2
Ilusões 3
Ilusões 4
Ilusões 5
Ilusões 6
Mega Sena Brasileira
Celta
Eslava
Greco-Romana: ABC
Greco-Romana: DEF
Greco-Romana: GHI
Greco-Romana: MZ
Lenda da Origem da Ametista
O Nascimento de Baco
Prometeu Acorrentado
Nomes Curiosos
Significado dos Nomes
Alimentação
Doenças Comuns
Filtros
Iluminação
Manutenção
Dicas
Plantas Ornamentais
Algas
Espanhol
Inglês
Italiano
Português
Restauração
Softwares
45 Frases para Viver Melhor
A Fé e a Corda
Amigos
Amigos
Anjo
Antiga Lenda
As palavras
Assembléia na Carpintaria
A Parte Mais Importante
Círculo de Amor
Deus
Eco da Vida
Eficiência
Eficiência e Eficácia
Fábula da Estrela Verde

Os 4 Indivíduos
Hospital do Senhor
Imaginação e Criatividade
Mestre Zen
Não deu Tempo...
Lição de Vida
Deus Escreve Certo...
Carta de um Escritor Africano
O Coelho e o Cachorro
O Homem e a Mulher
O Menininho
O Sábio e o Rei
O Silêncio
O Trabalho de Cada Um
Por que não Quebrar Paradigmas?
Provérbios Árabes
Quando Você Pensava...
Rápido Demais
Reflita
Renovação
Solidariedade
Sorria!
Teste de Prioridades
A Vaquinha
A Visita de Jesus
BrasilxArgentina
BrasilxAlemanha
BrasilxJapão
BrasilxMéxico
BrasilxGrécia
BrasilxAlemanha
BrasilxTurquia
BrasilxInglaterra
BrasilxBélgica
BrasilxCosta Rica
BrasilxChina
BrasilxTurquia
O Processo do Sono
Introdução ao Sonho
Significado do Sonho
Tornados
Foto de Tornados
Foto de Tornado
Foto de Furacões
Foto de Tsunami
A História
O Objetivo
O Tabuleiro
O Peão
A Torre
O Bispo
O Cavalo
A Rainha
O Rei
O Roque
Como jogar
Download
O Vocabulário
Os mestres
Lenda do Xadrez