O Vingador da Lady Di

Autor: Luis Fernando Veríssimo

Digamos, João e Maria. Ele 37, ela 30.

Sem filhos. Bem de vida. Dinheiro dela. Sócia de uma loja.

Ele teve um acidente de carro, ficou com problemas. Caminha, pensa, fala, veste-se sozinho, sai com o cachorro, trepa, tudo normal.

Mas não consegue se fixar num emprego. Não briga, não causa transtorno, não reclama, apenas não consegue trabalhar. Passa longos períodos em casa, fazendo nada.

Comentário da mãe dela: ele ficou manso. Não é um elogio. Comentário do pai dela: você não precisa ficar com ele. Ela: mas eu gosto dele, papai! Sei, minha filha, mas ele ficou outro. Não é mais o homem com quem você se casou. O que não admitia perder nem em canastra. O vencedor. Este é outro. Você não tem nenhum compromisso com esse outro.

Os dois estão voltando para casa de uma reunião na casa de amigos. Digamos Régis e Marlize. Régis disse que tinha uma fita especial que eles precisavam ver. Não era a mesma pornografia de sempre. Era pornografia e mais alguma coisa.

No carro, João diz:

- Aquilo era verdade?

- Acho que não.

- Aquilo era verdade.

- Acho que não, João.

- O sexo não é simulado. Por que a morte ia ser?

- O sexo é simulado.

- Como simulado? A gente vê a penetração, vê tudo.

- Não, o sexo é de verdade, mas é encenado. Para a câmera. Portanto, é simulado.

- Se o sexo é de verdade, não é simulado. Se é feito para ser filmado, gravado, isso é outra coisa. Mas é sexo. Os homens ejaculam mesmo. Ou você acha que aquilo é truque?

- Mas os osgarmos das mulheres são simulados. Isso ou garanto.

- Se a ejaculação era de verdade, o sangue também era.

- Você acha que eles mataram mesmo a mulher?

- Acho.

- Ó João!

Ela está dirigindo o carro. Ele não dirigia mais, desde o acidente. Quando ela olha para o lado, vê que os olhos dele estão brilhando. Os olhos de João estão cheios de lágrimas.

Digamos, Ana Maria. Nome de guerra, Káti, 27 anos, prostituta desde os 14. Interior do Paraná. Deflorada pelo pai. Chegou na cidade de carona num caminhão, foi para a zona, conheceu o Polaco, grande amor, um filho. Polaco preso, Káti de volta na zona. Um tal de Valdir:

- Olha o endereço. Aparece lá para fazer um teste.

O teste era trepar com o Valdeci, um nordestino cujo pau era quase maior que ele. Tudo: pela frente, por trás, chupar, aprovada. Deixa o teu telefone, a gente te procura. O teste tinha sido gravado, já era a fita, nunca mais a procurariam, mas o tal de Valdir gostou da branca Káti. Aquele olhar de baixo pra cima, loirinha, narigudinha. Lady Daí ,era isso. Lady Daí. Tinha futuro na difícil arte de representar.

João não consegue dormir. Mataram a moça. Claro que mataram a moça. O que estava por trás segurou, o outro saiu de cima dela e foi buscar a faca. O da faca chegou a olhar para a câmera, olhou para alguém atrás da câmera. Para confirmar que era para matar mesmo, não era simulado. E o riso dela. O riso inseguro de quem não sabe se é brincadeira ou não. Até depois da primeira facada, o riso ainda. Para não a chamarem de babaca quando fosse revelado que era tudo brincadeira. Pensou que nós íamos te matar mesmo, babaca? E a segunda facada. E a terceira. A gente vê a penetração, vê tudo. E o terror no rosto dela. João não consegue dormir com o terror no rosto de Lady Di.

Régis, depois da fita: e então?

Marlize: que sangueira!

Régis: confesso que me deu tesão.

Marlize: você é doente mesmo.

Régis: doente você vai ver na cama daqui a pouco.

Maria sai da cama, toma seu banho, faz seu café, toma seu café lendo seu jornal, só quando volta para o quarto para trocar o robe pelo vestido para sair e ir trabalhar vê que João está de olhos abertos, olhando para o teto.

- Quié, João?

- O quê?

- Desde quando você está assim?

- Não consegui dormir.

- Que foi?

- O filme. A fita.

- Francamente, João!

Maria hesita. Senta na cama e o consola, como a uma criança.

Está cansada de tratá-lo como criança. Ele não é uma criança. É um homem grande. Físico de ex-remador.

- Sabe o que você parece? Uma criança.

<- Eles mataram a moça, Má.

- Não mataram. Esquece a fita, João. Era uma fita! Uma encenação.

- Era verdade.

- Bom. Eu não vou ficar aqui discutindo com você...

Da loja, Maria telefona para o doutor Alvear. Será que ele pode passar no apartamento e dar uma olhada no João? Pode ser à noite. Não, não, nada grave. Só dar uma olhada. O João está um pouco ansioso.

Pagavam quase nada, mas Káti precisava do dinheiro. O garoto precisava de material para a escola, precisava de roupa, precisava de remédio. O trabalho era chato. Quando era com o Valdeci ainda vá, ele era legal. O Valdeci era querido. Mas tinha os outros, tinha o Trapiche, tinha o Negro Bóia. O Negro Bóia era o pior. Se achava grande coisa, mas era o que mais broxava. Atrasava a produção. Káti só impôs uma condição para trabalhar com o Valdir. Nada de bicho. Nem cobra? Nem cobra. Uma noite, os dois jantaram juntos e Valdir disse que estava pensando em fazer umas fitas com história. Com enredo. O público estava pedindo uma coisa mais sofisticada,mais do que só vupt e vupt o tempo todo. Pela décima vez, Valdir pediu para Káti mudar seu nome de guerra. Para Diana, Káti achava falta de respeito. Nada de Diana. E nada com bicho.

Quando Maria chega em casa às 6 e meia da tarde, João não está. Tem um bilhete da empregada: "Seu João não quis almoso e saiu com o Bronson e não volto". Maria começa a fazer telefonemas. Não consegue localizar João e o cachorro. Não sabe onde procurá-los. Sai à rua. O porteiro só viu o seu João sair do prédio com o cachorro, nem viu para que lado foram. Na vizinhança não sabem de nada. Quando o doutor Alvear chega, Maria conta que o João está angustiado, mas não diz por quê. Não fala da fita. Fitas pornô, o que o doutor Alvear iria pensar dela? Deles?

- Ele ainda faz fisioterapia?

- Não, não precisa mais.

- Tente convencê-lo a ir ao meu consultório. Para um check-up.

- Vou tentar. Desculpe a viagem perdida.

- Você quer que eu fique até ele chegar?

- Não, não, obrigada. Não sei que horas ele vai aparecer.

Antes de sair o doutor Alvear pergunta:

- Ele mudou muito depois do acidente, não foi?

- Mudou, mudou.

Antes do acidente, Maria jamais esperaria ver o João, daquele tamanho, com os olhos cheios de lágrimas.

Nove e pouco, toca o telefone. Era o Régis.

- João está aí?

- Não, e estou morrendo de preocupação. Não sei onde...

- Ele esteve no meu escritório esta tarde. Com o cachorro.

- Pra quê?

- Queria informação sobre a fita de ontem à noite. Onde eu tinha conseguido.

- E você disse?

- Dei a informação que ele queria. Não sei se vai adiantar. Olha, Maria...

- Quê?

- O João não estava bem, não.

Digamos, Curvelo. Retaco, ombros largos, musculoso, mas com uma barriga que tenta disfarçar sem sucesso. Seus 40 anos. Fisioterapeuta. Ajudou João a se recuperar do acidente. Durante os exercícios e as sessões de massagem, dizia coisas que o outro João, o vencedor, acharia absurdas, mas o João convalescente achava formidáveis. Curvelo não comia carne, ou qualquer coisa vermelha. Dizia que todo mundo tem uma aura magnética, e que as auras se atraem ou se repelem. Sabia, por experiência própria, que era perigoso contrariar as auras. Casara com uma mulher com aura oposta à sua, que até tentara interná-lo, e num momento difícil da sua vida, logo depois de sua volta do planeta Sigma. Fora levado por extraterrestres. Não ficaria em Sigma porque lá eles só se alimentavam de tomates. A terapia durara meses, ele e João tinham ficado amigos. João sabe ue pode contar com o Curvelo. Vai até o seu apartamento. Precisa da sua ajuda. Claro, doutor. Claro, doutor. Suas auras conbinavam.

Chama a polícia, aconselha o pai de Maria. Ele é um desequilibrado. Não é, papai. Ele mudou, mas não ficou louco. Você já ligou para os hospitais? Ele pode ter sido atropelado. Ele saiu com os documentos ou só com o cachorro? Liga para o necrotério. Credo, papai!

Mulher com mulher Káti não gostava, mas fazia. A primeira fita com enredo do Valdir foi "Lesbos - A Ilha daSacanagem", baseada em Robson Crusoé. Káti trabalhou com Jackie, uma morena. O Trapiche era o náufrago, o Negro Bóia era o índio, o Valdeci tinha uma ponta.

O dono da loja vê entrar o trio. João, Curvelo e o cachorro. Um comprido e o outro largo. Don Quixote e Sancho Pança, pensa. Pois não?

- Eu sou amigo do Régis.

- Ah, pois não.

- Ele disse que o senhor tem umas fitas, aí, especiais.

- Sim.

- Será que...

- O senhor pode vir comigo?

Um escritório apertado atrás da loja. Mal cabem os quatro. O cachorro fica inquieto.

- Quieto, Bronson.

- O senhor desculpe, mas esse assunto tem que ser aqui. Eu não posso me arriscar. O doutor Régis deve ter dito, é tudo clandestino, tem que ser na confiança. As fitas são especiais.

- Eu sei.

O homem abre um armário. Porta decorrer. Os vídeos enfileirados. Etiquetas brancas com o título escrito à caneta. O homem aponta.

- Crianças, animais, sadomasoquismo...

- Uma que o Régis tem...

- A com a Lady Di? "Baby Até aÚltima Gota".

É o que tem mais saída. As pessoas pedem "aquela da Lady Di". Deixa ver... Não está aqui, não. O doutor Régis deve devolver a dele hoje ou amanhã. Esta aqui é do mesmo gênero. "O Último Orgasmo". O senhor...

- Onde elas são feitas?

- Como?

- Onde essas fitas são feitas? A da Lady Di?

O homem, desconfiado, estuda João. Depois:

- Por quê?

- Eu preciso saber.

- Desculpe, mas...

Curvelo substitui João na frente do homem. Sua barriga contra a barriga do homem.

- Ele precisa saber, e você vai dizer bonitinho. De onde você compra as fitas?

- É de um cara.

O cachorro se agita.

- Quieto, Bronson.

- Que cara?

- Um cara. Acho que ele faz as fitas. É daqui mesmo.

- Você tem o telefone dele? O endereço?

- Não.

- Tem, sim.

- Não tenho.

- Tem, sim.

Káti não queria bater no pobre homem."Bate, ele gosta", disse Valdir. Káti não conseguia. Depois bateu, mas sem força. Valdir mandou parar a gravação. Puxou Káti para uma conversa. Qual era o problema?

- Eu não consigo.

- Ele gosta.

- Por que você não faz esse com a Jackie?

- A Jackie tá fazendo "O ÚltimoOrgasmo".

- Eu não posso.

- Então tchau. Não me aparece mais.

Káti pensou no filho. Não podia perder aquele dinheiro. Voltou para a cama onde o homem estava amarrado, só de sunga, a barriga muito branca para cima, Káti começou a bater com o chicote. Pensou no Polaco na cadeia e bateu mais forte ainda. "Isso!", gritava o Valdir.

Terceiro dia sem notícia do João. O pai e a mãe de Maria mudaram-se para o apartamento para ficar com ela. Chegam Régis e Marilize, os únicos amigos de sabem do desaparecimento. Régis tem novidade:

- Ele esteve na locadora. Ele, o cachorro e outra pessoa.

- Que outra pessoa?

- O dono da locadora disse que era um armário.

- Quem será, meu Deus?

- Eles estão atrás do produtor do vídeo.

- Ele enlouqueceu.

- Não enlouqueceu, papai!

- O dono da locadora me deu o telefone do homem que vende vídeos. Um tal de Valdir.

- Vamos dar pra polícia.

- Não. Vamos telefonar pra ele.

Para fazer "Primas Taradas",Valdir contratou Sharon, outra loira. Káti antipatizou com Sharon de saída.

- Cadê a Jackie?

- Voltou pro Ceará.

- O quê? Ela não me disse nada.

- Problema de família.

Valdir mudou o roteiro de "PrimasTaradas" para favorecer Sharon, que passou a ser a prima dominadora. Sharon também substituiu Káti na cena de tortura do entregador. Káti protestou. Valdir disse que estava cansado das queixas de Káti. Se ela quisesse desistir, a porta da rua estava ali mesmo.

João e Curvelo no apartamento de Curvelo. O cachorro comendo na cozinha, os dois na sala decorada com retratos de santos e atletas. Desde a infância, Curvelo coleciona santinhos, figurinhas de jogador de futebol e fotos de atletas. Algumas fotos têm dedicatória, de gente que Curvelo ajudou a se recuperar com a fisioterapia, e dos seus tempos de massagista de futebol. Mas um retrato de São Judas Tadeu também está assinado: "Obrigado por tudo. Do teu Judas T.".

- Faca? Pergunta Curvelo.

- Justiça é faca. Mataram ela a facada.

- Coitadinha.

- Criaturas desprotegidas. O mundo está cheio delas.

- Não mais desprotegidas, não é, doutor?

João sorri modestamente.

O filme se chamará "Baby, Até aÚltima Gota", disse Valdir. Káti quis saber se Sharon ia estar nesse também. Não, disse Vadir.

- Nesse você é a estrela.

Ninguém atendia o telefone do tal Valdir. Daria para descobrir o endereço, sabendo o telefone? Fácil, diz o pai de Maria.

João segura a faca pela lâmina, como um crucifixo. Beija o cabo da faca, depois dá para Curvelo beijar o outro lado do cabo. Depois os dois se abraçam, emocionados.

- Pronto? - diz João.

- Pronto, doutor.

- Vamos, Bronson!

Valdir explicava a cena. Káti está com dois na cama. Ela não sabe, mas os dois combinaram matá-la. Enquando o Nego Bóia a toma por trás, o outro - um novo, Reginaldo, o mesmo que trabalhou com a Jackie em "O Último Orgasmo" - levanta da cama, vai até a cozinha e pega uma faca. O Negro Bóia a segura enquanto o outro enfia a faca no seu corpo. Quatro vezes. Depois fariam os closes. Káti fez uma cara feia. Aqueles enredos do Valdir ficavam cada vez mais estranhos. Agora tinham mensagem. O papel de Káti era de uma pecadora que acabava pagando por uma vida suja. O papel de Reginaldo era de um louco dedicado a limpar a sujeira do mundo.

- Cadê o sangue? - quis saber Valdir.

O balde com o líquido vermelho estava alí.

- Vamos gravar.

Maria, o pai de Maria, Régis e Marlize chegam no endereço do tal de Valdir, uma grande fachada branca sem janelas no subúrbio. Só uma porta de ferro enferrujado, entreaberta.

- Eu ainda acho que a gente devia ter avisado a polícia - diz o pai de Maria.

Maria está olhando para uma coisa na calçada.

- Olha aqui...

São pegadas de cachorro. Vermelhas. Recentes.

- Meu Deus do céu...

Régis empurra a porta enferrujada como pé. Os quatro entram lentamente num grande espaço sombrio. Chão de cimento. Custam a se acostumar com o escuro. Aos poucos divisam um cenário montado no fundo, um quarto de dormir cercado de refletores apagados. Dirigem-se para lá. No meio do caminho, quase pisam nos corpos. São quatro, numa poça de sangue.

- Meu Deus do céu! (Maria)

- Que sangueira! (Marlize)

- Vamos dar o fora! (pai de Maria)

- Limpem os sapatos! Limpem os sapatos!(Regis)

É dia, mas a rua está deserta. Ninguém os vê entrar correndo no carro e sair em disparada.

João e Curvelo limpam o sangue do interior do Gol do Curvelo. Depois, no apartamento do Curvelo, limpam o sangue das patas de Bronson. Depois se apertam as mãos, solenemente. João diz que precisa ir pra casa. Maria deve estar preocupada. Nem sabe quantos dias está fora de casa.

- O senhor não quer que eu o leve?

- Obrigado. Vou pegar um táxi.

- O senhor não quer ficar com a faca?

- Não, ela é sua. Se precisarmos dela outra vez...

- Ela estará aqui.

Se abraçam de novo.

- Vamos, Bronson.

No carro, Maria, o pai, Régis e Marlize combinam que não dirão nada a ninguém. O importante é encontrar o João. Nunca estiveram no subúrbio. Não viram os corpos. Não sabem de nada. Aquilo não aconteceu.

- E o dono da locadora? Ele sabe que o João estava atrás do Valdir.

- Ele seria o último a falar. As fitas dele são ilegais. Quanto menos ele se envolver com a polícia, melhor pra ele.

Quando chegam em casa, João está lá. Banho tomado, Coca Lite com limão. Maria abraça-se nele, chorando.

- Que é isso, Má?

- Como você está? - pergunta Régis.

- Estou ótimo.

O pai de Maria sacode a cabeça. Mari continua colada no marido, beijando seu rosto. O que se pode fazer?

Káti lê no jornal a notícia dos assassinatos. Valdir, Natalício (vulgo Negro Bóia), Adalberto (câmera) eReginaldo. Ainda bem que o Valdeci escapou, pensa. No jornal diz que não sabem quem são os assassinos. Certamente muitos, pois os quatro morreram a facadas sem poder reagir. Havia pegadas de um cachorro no local, não se sabe se ocachorro estava com os assassinos, com os assassinados ou se entrara ali poracaso depois das mortes. Os mortos faziam filmes pornográficos, podia ser uma guerra de gangues do setor. Merda, pensa Káti. E agora? De volta para a zona até o Polaco sair da cadeia.

João vê na TV uma reportagem sobre um hospital público. Digamos que uma criança morreu na sala de espera, sem socorro, porque o médico que devia estar lá não estava. Estrevista com a mãe desesperada, entrevista com o médico faltoso, um pulha que só falta culpar a criança por ter nascido pobre. Foto da criança sorrindo para a câmera. Pobre criatura desprotegida. Maria espia da cozinha e vê João com lágrima nos olhos.

- Que foi, João?

João pega o telefone e digita um número.

- Alô, Curvelo?

Posted by criptopage